A gastronomia latina sempre foi muito mais do que apenas sustento; é um manifesto de identidade e, muitas vezes, uma ferramenta de sobrevivência. Entre os dias 12 e 24 de maio, essa força ganha os holofotes no condado de Los Angeles com a Dine Latino Restaurant Week. Em sua quinta edição, o evento não é apenas uma vitrine de menus promocionais, mas um grito de resiliência de uma comunidade que, nos últimos tempos, enfrentou um cenário de guerra silenciosa, entre operações de imigração (as famosas batidas do ICE) e a escalada absurda dos custos operacionais no setor.
São mais de 200 estabelecimentos participando, representando a herança culinária de 20 países da América Latina. O crescimento do evento impressiona: começou em 2021 com apenas 60 casas e seis dias de duração; hoje, dobrou o tempo de festival e triplicou o número de cozinhas envolvidas. Para Lilly Rocha, fundadora da Latino Restaurant Assn., essa é a chance de desbravar o desconhecido dentro da própria cultura. Sendo colombiana, ela mesma admite que se surpreendeu com a quantidade de restaurantes de sua terra natal espalhados por Los Angeles. É aquele tipo de descoberta que só uma metrópole com quase 50% de população latina pode proporcionar.
No entanto, o clima festivo carrega o peso das dificuldades recentes. No ano passado, as batidas do ICE em áreas centrais de L.A. forçaram o fechamento precoce de muitos comércios e instauraram o medo. O impacto foi direto no balanço financeiro e no emocional de quem faz a engrenagem girar: funcionários com medo de ir trabalhar e clientes evitando sair de casa para não se tornarem alvos. Agustin Romo, o nome por trás do peruano Casa Chaskis, resume bem o sentimento de ser atacado por questões que fogem completamente ao controle do dia a dia de um restaurante, citando a luta constante contra o aumento do aluguel e dos insumos.
Mesmo sob pressão, a qualidade do que chega ao prato é inquestionável. Em Long Beach, o Casa Chaskis aposta em um menu fechado com empanadas de carne (ou opção vegana) e um arroz chaufa caprichado por 22 dólares. Já no Lugya’h, em West Adams, o chef Alfonso “Poncho” Martinez leva as raízes da Sierra Norte de Oaxaca para o público com suas mini tlayudas e acompanhamentos que vão do mole ao guacamole por 35 dólares. Para Poncho, é uma questão de mostrar ao mundo do que os latinos são capazes. Segundo dados do Los Angeles Almanac, 63% dos trabalhadores do setor gastronômico na região são latinos. Ou seja, sem essa mão de obra e essa cultura, a cidade simplesmente para.
A batata rústica de respeito para fazer em casa
Nem todo mundo consegue estar em Los Angeles para prestigiar esses chefs, mas o espírito dessa culinária — que valoriza o ingrediente simples e o preparo bem feito — pode ser replicado em qualquer lugar. Se você quer aquele acompanhamento clássico de bar ou restaurante, mas quer fugir da fritura e do trabalho excessivo, a batata rústica caseira é a resposta. É o tipo de receita que entrega a crocância necessária por fora e a maciez por dentro, sem precisar de muito mais do que um forno e paciência.
Para preparar uma porção generosa, que rende até 8 pessoas e leva cerca de 40 minutos, você vai precisar de um quilo e meio de batatas. O segredo do visual e da textura está em manter a casca. Corte as batatas em formato de meia-lua e dê um susto nelas em água fervente por uns 5 minutos. Esse pré-cozimento é o que garante que elas não fiquem cruas por dentro enquanto douram no forno. Depois de escorrer, passe-as por água fria para interromper o cozimento.
O tempero é onde a mágica acontece. Em uma tigela, misture as batatas com meia xícara de azeite, um ramo de alecrim fresco, duas colheres de sopa de sal grosso e uma colher de sopa de páprica picante. Se você gosta de um toque mais defumado, pode trocar a picante pela defumada sem problemas. Espalhe tudo em uma assadeira, cuidando para que as batatas não fiquem amontoadas uma em cima da outra — elas precisam de espaço para o ar quente circular.
Leve ao forno preaquecido em fogo médio até que fiquem douradas e macias. O resultado é aquela batata com cara de profissional, perfeita para acompanhar uma carne ou apenas para ser devorada com uma cerveja gelada enquanto a gente celebra, à nossa maneira, a riqueza dessa herança latina que resiste e se reinventa, seja nas ruas movimentadas da Califórnia ou no conforto da nossa própria cozinha. No fim, cozinhar é também um ato de preservar quem somos.

